sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A EDUCAÇAO MEDIEVAL E O VINCULO ENTRE MESTRE E DISCÍPULO OBJETIVADO NO ROMANCE ENTRE MESTRE ABELARDO E HELOISA

Luiz Gonzaga de Medeiros Bezerra da Cunha
Martha Isabelle Astrid Medeiros Bezerra Lima de Mesquita
Olga Carolina Augusta Lima Mesquita M. B. Albuquerque

1.        INTRODUÇÃO: O Mundo Feudal e o sistema de educação objetivado no ensino da Patrística e no ensino da Escolástica

            Na Idade Média, encontramos o desenvolvimento do sistema feudal tanto como modelo econômico quanto político e social, cujo exame dialético parte da civilização romana (como tese), tendo como antítese a civilização bárbara, e como síntese a civilização feudal-cristã-medieval. Nessa perspectiva convém referenciar que “... o feudalismo é [...] uma sociedade fundada nas relações de homem para homem, numa cadeia de dependências; uma economia em que a terra não é o único, porém o mais freqüente meio de remunerar os serviços.” (BRAUDEL, 1989, p. 293), além de ser a base material das riquezas, das relações e da construção de uma aristocracia e nobreza da terra e da disseminação dos Estados (ou feudos).
            É o resultante dessa ancoragem de elementos ideológicos, ideais, representativos, estéticos e políticos que se forja a sociedade feudal, organizando seu sistema hierárquico, o sistema de senhoril, a servidão, a hereditariedade, o clero e as classes profissionais.
            Jacques Le Goff cita um texto de um bispo chamado Adalberon, que viveu por volta de 1030, que distingue os três componentes essenciais na estrutura da sociedade feudal e cristã:
Oratores, bellatores e laboratores, ou seja, os que rezam, os que combatem e os que trabalham, o que corresponde ao panorama social a seguir o ano mil. Em primeiro lugar, estão os clérigos e, mais em especial, os monges, cuja função é a oração que os põe em ligação com o mundo divino e lhes dá um enorme poder espiritual na terra; depois os guerreiros e, nomeadamente, o novo estrato social dos que combatem a cavalo e que viria a transformar-se numa nova nobreza [...] finalmente, o mundo do trabalho, representado essencialmente pelos camponeses, cujas condições juridico-sociais tendem a unificar-se e que com produto do seu trabalho, possibilitam a vida das outras duas classes. (LE GOFF, 1989, p. 15)
           
Dentro deste contexto, é que a igreja católica cresceu como a maior instituição social, capaz de controlar e de dar continuidade aos costumes e às tradições antigas e, com zelo e dedicação, tornou-se, em poucos séculos, a guardiã da economia feudal, a controladora do tempo, do parentesco, da alma e da educação, das formas de ver, sentir, fazer, e justificando a produção material da existência.
            Nessa época, os monastérios tornaram-se racionalmente um lugar onde funcionava o trabalho, bem como um lugar de entesouramento de bens, contrariando, assim, a prática dos senhores, que gastavam exageradamente suas riquezas. Nos monastérios existia uma divisão do trabalho, no qual escravos e servos eram destinados ao trabalho, enquanto os monges dedicavam-se ao rito e aos estudos. Nessa perspectiva a fundamentação de uma moral religiosa só foi possível na assimilação das idéias de Platão, sendo, portanto, estas utilizadas como instrumento para criar valores, comportamentos, fazendo com que as pessoas pudessem abdicar do mundo e controlar racionalmente as paixões.

2. A Educação através do ensino da filosofia Patrística: fé e razão

A Educação medieval foi predominantemente cristã, sendo influenciada tanto pelo pensamento da filosofia Patrística como pelo pensamento da filosofia Escolástica, paralelamente ao nascimento das instituições universitárias e a formação dos intelectuais. É neste contexto, que a educação adquire um caráter universal, supranacional, empregando uma linguagem única com o latim na construção de centros universitários, abertos em todas as partes.
 No período medieval, não houve grandes teóricos da educação. Em compensação houve muitos educadores, geralmente monges e eclesiásticos, alguns dos quais escreveram sobre educação. Estes, tanto elaboraram um saber enciclopédico pedagógico, como um saber pedagógico escolástico (LUZURIAGA, 1977).
            Pode-se dizer, que uma das características da pedagogia medieval foi a de que os educadores conservavam o saber clássico; no primeiro momento, o fizeram retomando as idéias de Platão, consolidando o saber da patrística. No segundo momento, elaborando a Escolástica, a partir do saber aristotélico, deitando fora o saber transgressor e revolucionário do pensamento pré socrático ou do período naturalista grego.

3. As Transformações da Paidéia Cristã e a sua institucionalização na sociedade feudal


A organização e reflexão pedagógica medieval estão submetidas às leis do cristianismo, em que a Igreja evoca Cristo como figura que vai articular e fazer com que a Igreja possa ser mestra e mãe; tal proposição vem esconder e ao mesmo tempo consolidar uma educação profundamente vinculada ao Eros e ao Édipo.
A Igreja terá nos seus mestres a figura do professor-filósofo-pedagogo, que ensina a imitação de Cristo através do amor, entretanto ensina a obediência, a submissão e a castração. Como pai castrador e legislador e como mãe carinhosa, a Igreja veio repassar e consolidar uma sociedade que desprezava o mundo e para que houvesse tal comportamento, era necessário ser um imitador de Cristo.
Uma primeira estrutura de educação elaborada na Idade Média foi a objetivada no pseudo-Dionisio (século V), e tinha como propósito levar o ser humano às formas cada vez mais espiritualizadas.
Os escritos denominados de “corpus areopagieum” e que traziam o nome de Dionísio, discípulo de São Paulo “tal como conhecemos, deve ter sido composto, portanto, por volta do fim do século IV ou do início do século V [...] exerceu profunda influência sobre o pensamento da Idade Média” (GILSON, 1998, p. 86).
No pseudo-Dionísio existe uma hierarquia gerada pelo conhecimento das criaturas e que partia de seu próprio ser.
Seria, porém, Scoto Erígena (810-875) que inspirado no neoplatonismo vai mostrar o processo de ascendência na ordem dos seres criados por Deus e que retornam a ele. Existe em Erígena uma noção e um direcionamento natural a Deus,


Todo processo de retorno a Deus é ligado no homem a valorização do conhecimento dos princípios, das idéias a que levam a disciplinae liberales e em particular a dialética, que indaga diligentemente os conceitos racionais universais da mente, mas que é preparada e estimulada pela aritmética, pela geometria, pela música e pela astronomia.(CAMBI, 1999, p. 164)


Nessa perspectiva, a Paidéia cristã se consolida no mundo medieval, na perspectiva racional-espiritual de uma formação interior de caráter religioso.
Pode-se dizer que a Patrística foi predominantemente a educação dos mosteiros, que predominou até o surgimento da Escolástica.
De acordo com (LUZURIAGA, 1977, p. 79), o mosteiro tinha como proposta educacional prioritária:


A formação de monges, que começava muito cedo, aos 6 ou 7 anos, como pueri oblati, e ia até os 14 ou 15 anos. Iniciavam-nos na leitura e na escrita, nos trabalhos agrícolas e artísticos, na cópia de manuscritos e no conhecimento das sagradas escrituras. Posteriormente, introduzia-se também o estudo de alguns escritores clássicos.


            Desse modo, a educação era de reprodução das capacidades técnicas, das classes e das relações sociais e uma educação religiosa que suscitava temores, expectativas, exaltações, o medo da vida após a morte e o horror com relação aos sofrimentos que a alma podia ter no inferno, bem como a exaltação das delícias do paraíso, criando no beato uma valorização da religião.

4. A Educação Escolástica: o paradigma dominante aceito como verdade
            Pode-se dizer, que foi a Escolástica mais alta expressão da filosofia cristã medieval e que a pedagogia estava impregnada pelo seu espírito, não só a educação como a economia, a arquitetura, a escultura e a pintura. Na Escolástica, o professor era chamado de scholasticus, ensinava artes liberais, vindo a ser mais tarde professor de filosofia e teologia, e oficialmente chamado de magister. Desse modo, o espírito escolástico desenvolveu-se desde o século IX, teve seu apogeu do século XIII, até o começo do século XIV, entrando em decadência a partir do Renascimento.
Portanto, a partir do século XVI, o ensino passou das mãos dos monges, à competência das escolas catedráticas do clero secular. “Na verdade, as escolas catedráticas já existiam há alguns séculos, como uma organização semelhante à das monásticas e, também, divididas em externas, para os leigos, e internas para o clero”. (PONCE1989, p. 98).
            Nestas escolas, existe toda uma matematização do pensamento


O trabalho da escola é coletivo. É um labor de cooperação, em estreita relação com a organização eclesiástica, que assegura uma continuidade especial do pensamento.[...] É um certo saber em confronto com a das sete artes liberais, o do Trivium e do Quadrivium. (MARIAS, 191982, p.139).
           

            A preocupação das escolas das catedrais era no sentido de forjar uma consciência que diz respeito às verdades do cristianismo como verdade única, em que amar e venerar a Deus devia fazer parte da vida dos intelectuais; assim, tanto para as escolas dos monastérios, como para a escoa das catedrais o que menos importava era a instrução propriamente dita.
                     Enquanto isso, as artes liberais eram formadas pelo estudo do Quadrivium: aritmética, geometria, astronomia e música e do Trivium, que se constituía da gramática, dialética e retórica.
Nas palavras de (LUZURIAGA, 1977, p. 80): “A escolas catedrais se destinavam principalmente à formação dos clérigos - que estudavam no Trivium e no Quadrivium as matérias realistas e humanistas – os Evangelhos ou a Teologia.”
            Estas escolas formavam aqueles que tinham futuramente a incumbência de discutir os assuntos tanto da vida temporal como da vida espiritual no Estado e na Igreja


3.2- O Surgimento das Universidades em Conexão com as Escolas das Catedrais


Foram as escolas das catedrais que disseminaram os germes das universidades no século XI, consolidando no domínio intelectual novas possibilidades de ascensão social das burguesias em formação. Com relação as instituições universitárias  (KATZENSTEIN, 1986) podemos afirmar  que  as universidades européias tiveram  seu inicio  no terceiro quarto do século XI, na Itália e na Espanha. Vieram depois, sucessivamente, a da França – a Faculdade de Paris ensinava Teologia, Direito, Medicina e Filosofia – a da Inglaterra no século XIII; da Áustria, Alemanha e Dinamarca no Século XIV. Era típico que um jovem da nobreza fosse instruído nas artes liberais: Gramática, Lógica, Retórica, Aritmética, Geometria, Astronomia, sendo que a mais nobre das ciências estava ligada à divindade, que era a Teologia, por outro lado, a música estava ligada às artes médicas, cujo objeto era a harmonia do corpo. Ao começar o século XIII, nasce a Universidade de Paris, um dos maiores poderes espirituais da Idade Média; um enorme agrupamento de mestres e alunos das escolas submetidas à autoridade de um chanceler, o chefe era o reitor, que acabou por suplantar o chanceler na direção das universidades. Os graus das faculdades eram o bacharelato, a licenciatura e o doutorado, a qualidade de doctor ou magister... (Marias, 1982)
As universidades fundadas a posteriori foram as de Oxford, que se tornou o centro do pensamento inglês, caminhando dentro de uma formação empirista e científica; ao contrário da tradição francesa, que prevaleceu a influência platônica agostiniana e aristotélica[1]. Os graus universitários sancionaram de acordo com a outorga de graus o ensino que ministravam. O sistema de graus universitários e a organização dos exames foram aperfeiçoados no decorrer do século XIII, na faculdade de Artes e na faculdade de Teologia. Na primeira concediam-se três graus: baccalaureantus, licentia e magisterium (doctor magister artium) . Na faculdade de Teologia, encontramos os seguintes graus: bacaloureatus, licentia e magisterium

            Cumpre citar alguns educadores medievais como Santo Anselmo (1033-1109), Arcebispo de Cantuária, conhecido como um dos fundadores da Escolástica.


Anselmo não foi, apenas, um intelectual voltado exclusivamente para a meditação filosófica e teológica – pelo contrário - participou ativamente da vida política de seu tempo, depois do fecundo período de atividade [...] sua participação política foi orientada pela idéia de que o Estado está para a Igreja assim como a filosofia está para a teologia e a natureza está para a graça (SANTO ANSELMO, 1979, p. 7-13).


Anselmo afirmava que o cristão devia chegar ao conhecimento pela fé e não a fé pelo conhecimento e que se deve acreditar nos mistérios da fé cristã antes de se racionalizar sobre eles.
            Outro pensador medieval que influenciou a educação universitária européia foi Abelardo (1193-1280), conhecido como o “doutor universal”, este via a possibilidade de articular razão e fé, utilizando o método dialético, mesmo sem ter a profundidade e a capacidade sistemática de Santo Anselmo, com grande pendor para a crítica e a dialética.


Abelardo consegue redigir uma série de obras. Entre as principais estão “A Dialética”, “As Glosas, em que discute Aristóteles, Porfírio, Boécio e a teologia cristã [...] Atormentado pela concupiscência dos monges, empenha-se durante muitos anos, em acabar com a moralidade reinante [...] Submete os dogmas da fé à análise dialética da razão, aproximando-se perigosamente do que era considerado heresia (ABELARDO, 1979, p. 203)


            Destacou-se, entre tantos, Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Sendo a mais alta expressão da Escolástica e do saber filosófico medieval, ele não escreveu especificamente sobre educação, porém seu pensamento influenciou decisivamente toda pedagogia católica da idade média, até nossos dias. Tomás de Aquino constitui-se na síntese do pensamento cristão e helenista (aristotélico-neoplatônico) do patrimônio da revelação judaico-cristã.
                        Tais intelectuais foram construtores do poder universitário, ao lado da função religiosa e do guerreiro político, se instituía como terceira função: a de estar autorizada a se afirmar como função científica, dando privilégio ao magistério, cujas tarefas foram as de criar as condições do fazer científico, tornando possível, igualmente, criação de métodos, rejeição dos já existentes e elaboração de uma representação social e uma identidade que os caracterizem como agentes do saber.
           

3.3- Os Personagens: Abelardo e Heloísa
3.3.1- Pedro Abelardo: mestre, transgressor e dialético


            Recebeu orientações para o estudo do Trivium  (gramática, retórica e dialética) e, ao que tudo indica, nada estudou do Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). Educou-se na Escola de  Roscelino, nominalista, e, nesta busca pela educação, vai até Paris, tencionando instruir-se cada vez mais e mostrar seus dotes intelectivos, inclusive a necessidade de demolir seus próprios mestres, mediante uma confiança cega em sua sabedoria, pois, para ele, seu próprio valor intelectual era indiscutível, a ponto de se acreditar o melhor filósofo de seu tempo.

3.3.2- Heloísa: sábia, revolucionária, uma mulher que amou demais
           

Aos 39 anos, Abelardo somente conhece o amor através dos livros de Ovídio, ou pelas canções por ele compostas, antes em função de um espírito goliárdico (vadiagem intelectual) do que por experiência. Estava no auge da glória e do orgulho e confessava não existir no mundo filosofia igual à dele.
Tomando conhecimento da existência de Heloísa - com 17 anos e sobrinha do cônego Fulbert – uma moça de cultura superior, cujo saber era notório em toda França. Desejou tê-la para perto de si e a conquistou, tal qual ocorreu com os seus mestres, posteriormente desqualificando-os, através da demonstração de que era superior a eles. Le Goff traduz as intenções do personagem Abelardo


Heloísa é uma bela conquista a ser acrescentada àquelas da inteligência [...]. É a mulher que lhe falta. Ele não toleraria absolutamente uma tola; também lhe agrada que ela seja bem feita questão de gosto e de prestígio [...]. Friamente, elabora um plano, no qual é mais bem sucedido do que esperara (LE GOFF, 1989, p. 41).


Assim fala o citado personagem
Havia na cidade de Paris certa mocinha chamada Heloísa [...], pelo rosto, ela não fazia má figura, mas a primeira vista [atraia] pela riqueza de seus conhecimentos. De fato, quanto mais esta vantagem da ciência literária é rara entre as mulheres, tanto mais servia de recomendação à mocinha e a tornara famosíssima em todo o reino. Ponderadas então todas as coisas que costumam cativar os amantes, pensei em uni-las a mim pelo amor muito cômodo e acreditei poder conseguir isso de modo muito fácil. (PEDRO ABELARDO, 1979, p. 261).
           

            Em assim sendo, o cônego confia a Abelardo a jovem Heloísa, para que em suas mãos ela pudesse engrandecer seus dotes intelectuais, Abelardo então consegue facilmente que o parcimonioso Fulbert pague-lhe in natura, com alimentação e moradia, suas aulas.
Continua Abelardo:


Por certo que eu era, então, pessoa de grande nome e me destacava pelo encontro da juventude e da aparência, de tal modo que eu não temia ser repelido por qualquer mulher que eu dignasse favorecer com meu amor. Acreditei que essa mocinha cederia diante de mim tanto mais facilmente [...]. Ora, todo inflamado de amor, [...] procurei a ocasião pela qual ela se me tornasse a ceder mais facilmente. [...] Que mais direi? Primeiro nós nos juntamos numa casa e depois no espírito. Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregamos inteiramente ao amor e o estudo das lições nosproporcionava as secretas intimidades que o amor desejava [...]. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor, do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros e mais freqüentemente o amor se refletia nos olhos do que a lição os dirigia para o texto.[...] Em suma, que direi? Nenhum grau do amor foi omitido por nós dois apaixonados, e tudo que o amor pode imaginar de insólito foi acrescentado e, quanto menos tínhamos experiência dessas alegrias, tanto mais ardentemente nelas nos demorávamos e tanto menos nos cansávamos disso (PEDRO ABELARDO, 1979, p. 262-263).



            Entre o mestre e a discípula houve no início de sua relação, uma troca intelectual, porém com o avanço dos dias, exacerbou-se transgressoramente a troca do amor carnal, vindo Abelardo a abandonar o ensino e seus trabalhos, na medida em que os desejos e as pulsões aumentavam, prolongando e aprofundando a aventura que era contrária à moral constituída. Tamanha era a dedicação de Abelardo pela jovem, que os outros discípulos começam a ficar ressentidos, pois se constatou que o jovem já não dava tanta assistência à escola, aos alunos e à filosofia, em uma época em que a igreja não permitia aos docentes casarem e constituir família.
                       

Com efeito, fato tão patente não poderia enganar senão a poucos ou a ninguém, creio, a não ser aquele para cuja vergonha isso concorria principalmente, a saber, o próprio tio da mocinha [...]. Oh! Que dor imensa a do tio ao tomar conhecimento de tudo isso! Quanta dor também na separação dos próprios amantes! Como fiquei confundido e envergonhado (PEDRO ABELARDO, 1979, p. 264).


            Pode-se dizer que todo esse romance será o condicionador de contrariedades e aborrecimentos, que marcarão o espírito de seus protagonistas para sempre. A primeira contrariedade se dá quando o casal é surpreendido e Abelardo tem que deixar a casa do anfitrião enganado e passam a ter encontros clandestinos com sua discípula, sendo expostos ao falatório geral, a ponto de gerar um escândalo; a segunda contrariedade advém da gravidez de Heloísa, concomitantemente, Abelardo, aproveitando-se da ausência de Fulbert, elabora a fuga da amante para a Bretanha, onde ela dá a luz ao filho, que recebe o nome de Astrolábio; a terceira contrariedade corresponde à reparação do erro cometido, quando Abelardo propõe ao tio de Heloísa um casamento escondido, uma vez que a publicação deste fato traria conseqüências contrárias a sua vocação de filósofo (a carreira acadêmica universitária).
            Segundo Le Goff “Étienne Gilson mostrou que a repulsa de Abelardo não se deve a sua condição de clérigo, porque simples tonsurado ele poderia contrair matrimônio. Mas ele receia como casado ver sua carreira profissional entravada e se tornar o escárnio do mundo escolar”. (LE GOFF, 1989, p. 42)
            Em uma carta a Abelardo, Heloísa surpreende o amante quando o pressiona o pressiona a renunciar à idéia de casamento, evocando a imagem de um casal de intelectuais pobres que ambos formariam.
            Destarte, Heloísa, em carta, procurou fazer algumas argumentações contra as núpcias, ao que se refere Pedro Abelardo


Ela, contudo, de modo nenhum, aprovou-me o plano, mas pelo contrário, dele me procurou dissuadir inteiramente, por dois motivos, a saber, tanto pelo perigo quanto pela desonra em que eu ia incorrer. Ela jurava que seu tio nunca poderia ser aplacado por satisfação alguma, como mais tarde o reconhecemos [...]. Quão indecoroso e lamentável seria ver que um homem como eu, que a natureza criara para todos, me dedicar a uma  só mulher e me sujeitar a tanta indignidade! [...] Por fim, acrescentava Heloísa, que seria muito perigoso para mim trá-la de volta, dizendo que lhe seria mais caro, e mais honroso para mim, ser ela chamada de minha amante, antes que de minha esposa, a fim de que ela me conservasse só pelo seu encanto e não devido à força do laço nupcial. (PEDRO ABELARDO 1979 p. 267-268)


            Abelardo, entretanto, não aceita o sacrifício de Heloísa e se casa com ela em segredo, tendo como testemunha do enlace o próprio tio da jovem. Porém, as intenções de Abelardo-Heloísa e Fulbert não são as mesmas. Abelardo desejava retornar à vida acadêmica de modo tranqüilo, Heloísa ficando, portanto, a sua sombra; enquanto Fulbert pretendia tornar o casamento público, mostrando a todos que assim debilitava o prestígio de Abelardo e, ao mesmo tempo, vingava-se dele.
Assim sendo, Abelardo procurou contornar a situação, armando um plano para que Heloísa se retirasse para o convento de Argenteuil, vestindo hábito de noviça, o que abafaria os comentários e Heloísa não teria desejos que não fossem os dele, a ele obedecendo cegamente. Todavia, quando este fato chegou aos ouvidos dos parentes, foi interpretado como uma zombaria, pois ao fazer da jovem uma noviça, Abelardo estaria facilmente se desfazendo da responsabilidade com a família. Assim, as ações de Abelardo são vistas como um desacato, pois ao se entrar nas ordens, rompe-se com o casamento. Em sendo assim, à noite, armaram uma expedição punitiva à casa de Abelardo, em que mutilaram seus órgãos sexuais, provocando grande escândalo.


Na verdade, foram principalmente os clérigos e, de modo especial, os meus alunos que me torturaram com os seus intoleráveis lamentos e queixumes, de tal modo que eu me via muito mais incomodado pela sua compaixão do que pelo sofrimento da ferida. Sentia mais a vergonha do que a mutilação e era mais atormentado pela infâmia do que pela dor. Ocorria-me o pensamento da grande glória que eu pouco desfrutara e de que modo ela me fora abatida por um incidente vulgar e vergonhoso(PEDRO ABELARDO, 1979, p. 269).


Após ter tido seus testículos arrancados, Abelardo vaio esconder sua vergonha na abadia deSaint-Denis, enquanto Heloísa seria lançada pela ordem de Abelardo, no convento de Argenteuil.



4- Um Olhar nas Cartas de Abelardo e Heloísa: O amor penalizado
4.1- Aluno e Professor: O Vínculo Fora da Lei
           

Segundo Kehl, “A causa primeira de que se originam as paixões são as pulsões, em duas grandes vertentes: Eros (pulsões de vida) e Thãnatos (pulsões de morte)” (KEHL, 1995, p.472)
            Nessa perspectiva, a mais antiga das manifestações das pulsões de vida são as da preservação e da luta pela vida, em seu constante movimento, pois, ao chorar, o recém-nascido, busca o alimento, o repouso, o agasalho. Concomitantemente, a estas pulsões de vida eclodem as pulsões eróticas vislumbradas no resgate da vida intra-uterina fusão ao corpo materno para efetivá-la na amamentação, no calor das mamas que aquecem cheias de leite e de sangue o corpo da criança, em cujos instantes nasce o vínculo afetivo expresso no cuidado e no carinho.
            Noutra ótica, Eros procura seu alimento no contato com outro ser vivo; nesse caso, é com um poder de irradiação violento, que ele contamina o outro (erotização) ou todo o grupo de pulsões de conservação por toda vida. Neste contexto, a psicanálise denominou de Eros o conjunto das pulsões de vida (conservação sexual e cognitiva).
            Já numa outra tipologia, as pulsões impelem os seres humanos para o repouso, absolvendo as tensões e levando-as ao grau zero de energia. Trata-se das pulsões de morte ou de Thãnatos, que vislumbra a abolição dos desejos[2].
Heloísa foi para Abelardo uma conquista acrescentada aquelas da inteligência. Ela era bonita e possuidora de uma inteligência superior, se for considerado a posição e o nível cultural das mulheres de seu tempo (século XII).
A personagem Heloísa passa a ter uma vida de servidão-fascinação, em virtude de ter seu ego enriquecido com as propriedades do objeto. Ela introjetou, portanto, o objeto em si própria, empobreceu-se, entregando-se ao objeto, substituindo seu constituinte mais importante, o ideal do ego pelo objeto[3].
O amor de Heloísa por Abelardo não se configurava como tal, porém como “sujeição humilde”, “devoção do ego ao objeto”, paixão sentimental (FREUD, 1969, p. 141-145).
Neste sentido, as suas cartas de amor demonstram que ela continuou serva dessa paixão, obedecendo a Abelardo e sofrendo por um crime que ela não cometeu. Por outro lado, fica evidente que Abelardo carregou todo seu ego de pulsões, tencionando esquecê-la, afastá-la de sua vida, insinuando que ela apagasse de si o passado, a conduzindo para a violência da vida monástica.
Pode-se dizer que a primeira carta de Heloísa para Abelardo traduz uma reclamação feita ao esposo do desprezo por ela sentido, tendo em vista ausências das correspondências dele para ela. Concomitantemente, percebe-se, por parte dela, indícios de ciúme, ao reclamar que ele escreve ao amigo e ainda expõe todo seu passado como consolo para as suas infelicidades pessoais. “Heloísa, vossa esposa, não vos merece alguma coisa mais do que Felinto, vosso amigo?” (HELOÍSA, 1968, p. 37).


Há poucos dias me entregaram, por causalidade, uma carta vossa dirigida a uma pessoa da vossa amizade. Conheci (e como poderia deixar de conhecer!) a vossa letra e abri a carta, aproveitando-me do sagrado direito que tenho sobre tudo quanto é vosso. Bem caro paguei a minha curiosidade! Lágrimas sem conta correram de meus olhos, não encontrando nela mais do que uma narração fiel das vossas desventuras passadas [...]. Cheguei até a desagradar-me da vossa franqueza; pareceu-me que para consolar um amigo infeliz, não era necessário expor-lhe com tanta miudeza a sinceridade da minha vida e da vossa...”. HELOÍSA p. (33). “Falo-vos aqui em nome de todas as nossas caras filhas do Paráclito, ainda que o nome de vossa esposa deveria ser bastante para abrigar-vos” (HELOÍSA, 1968, p. 38)


Esta primeira carta demonstra os traços da paixão, da solidão e do desprezo em que se encontra, mostrando também que Heloísa nunca deixou de exigir seus direitos legais e institucionais do matrimônio, já que consumado, ao lado do desejo ardente de ficar ao lado de Abelardo.


Abelardo despreza Heloísa com o desprezo daqueles que abandonam seus objetos de aspiração narcisista. Abelardo impõe a Heloísa o silêncio, o desprezo, o sofrimento. Abelardo faz da esposa o receptáculo de suas feridas e de sua compulsão neurótica.
Heloísa na sua angústia descreve sua dor:
“...A ignorância em que me têm posto, o vosso silêncio me atormenta sem cessar, talvez que o que tendes sofrido seja muito menos do que eu imagino e penso...” (HELOÍSA,1968, p.36).
Concebe-se que uma simples carta de Abelardo provocaria um gozo na alma dessa mulher, cujo ego foi totalmente consumido pela paixão amorosa e é esta paixão que a amortalha a alma, enquanto indivíduo indiferenciado. Heloísa já não é mais a mulher mais sábia do seu tempo, que discute e assimila os textos do saber clássico e que estuda línguas. Quanto a Abelardo, este impôs à Heloísa toda sorte de restrições, engessando-a na vida monástica da solidão e do frio sepulcral[4].
A letra de Heloísa revela seu desejo: “...Dai-me, portanto, o prazer das vossas cartas, sem esperar um milagre daquela caprichosa divindade. É a única consolação de que eu posso gozar separada de vós....” (HELOÍSA, 1968, p. 17).

b) A paixão e o desejo que reclama


As cartas de Abelardo tornam-se símbolos daquilo que é impossível, enquanto isso, as cartas escritas por Heloísa são letras da paixão que provocou o rasgamento do ser, daquilo que falta e efetiva a hiância ou o “furo” existencial dessa mulher.
            Heloísa exclama em uma de suas cartas:
“Trarei vossas cartas sobre o meu coração, e as beijarei muitas vezes...“...Dizei-me e repeti mil vezes em cada uma delas que me amais, que sois o meu esposo, que vos ocupais de mim; isto só me basta, ou para que melhor o diga, é só isto que eu quero; nada mais pretendo.” (HELOÍSA, 1968, p. 37).
Heloísa deseja aquilo que não tem e expressa nas suas letras o esmagamento do seu desejo:
            “... Não fujais de mim, caro Abelardo, e já que sois a causa dos meus suspiros, vinde ser testemunha deles.” (HELOÍSA, 1968, p. 39).
           

Nessa servidão, Heloísa alimenta com esperanças sua paixão, criando e acreditando nos juramentos e nas promessas mútuas, conservando as fantasias do passado como alimento para sua paixão, esquecendo a realidade objetiva e colocando em seu lugar o desejo absoluto de viver com Abelardo, desejo este ainda manifesto após as decepções, humilhações e traumas da realidade de suas vidas.
           

4.2- A Continuidade do Desejo e da Paixão na Segunda Carta de Heloísa a Abelardo: O Abandono Objetivado:
           

Heloísa reconhece que está sendo abandonada por Abelardo, mesmo assim, continua apaixonada por este homem que lhe trata com frieza, as cartas a ele dirigidas representam a continuidade de uma paixão, vivenciada de modo solitário.
a) Com relação ao sentimento de abandono: Abelardo exigiu de Heloísa a perfeição em todos os aspectos de sua personalidade, sendo que esta não pode consolidar todos os seus desejos inconscientes. Heloísa para Abelardo era o modelo de perfeição global e parcial, até o desencadeamento da violência com relação ao seu corpo (a castração efetivada em Abelardo por ordem dos tios de Heloísa). Posteriormente, todo o edifício narcísico elaborado com relação à Heloísa cai por terra; nesse caso, a relação entre Abelardo e Heloísa torna-se insustentável por parte dele, pois houve um desequilíbrio entre as aspirações e as possibilidades, já que ambos eram seres dotados de qualidades especiais. Heloísa já não era um modelo, sendo por isso abandonada.
“...Desgraçadamente, o reconheço: o vosso coração me vai abandonando; avançais no caminho da piedade muito mais do que eu desejava...” (HELOÍSA, 1968, p. 63).
Heloísa espera ser ainda a grande paixão de Abelardo, tendo em vista de “a aspiração de ser um Ego Ideal será tanto mais intensa quanto mais se o tenha sido em alguma etapa da vida e quanto mais se tenha descido no caminho em direção ao seu contrário” (BLEICHMAR, 1987, p. 90).
A experiência vivida nunca foi apagada, mesmo com a tragédia e a dor a paixão amorosa conseguiu sobreviver e intensificar-se na falta.
“...Tereis vós a crueldade de fazer com que eu vos percais de vista?...”[...] “...Esquecestes, então, da minha ternura e sensibilidade...?” (HELOÍSA, 1968, p. 64).
Heloísa tendo sido um dia a amante apaixonada, a aluna que passara por cima das leis da educação, a jovem que abandonara todos os projetos e esquemas de um casamento consolidado pelos programas da sociedade em que vivia, sua insatisfação frente ao desprezo e seu sonho de recuperar aquilo que foi perdido é mais intenso que os sonhos e os desejos daqueles que nunca tiveram nada e nem degustaram o prazer vivido como ocorreu com eles. É por isso, que Heloísa sofre cada vez mais, ela já não faz parte da vida de Abelardo e se um dia fez, foi como objeto de aspiração narcisista.
As letras de Heloísa referem seu clamor frente ao desprezo objetivado por Abelardo:
“...Ah!, cruel Abelardo, deveis enxugar as minhas lágrimas e não aumentar o meu pranto; deveis tranqüilizar as agitações do meu coração e não levar-me à desesperação...”  (HELOÍSA, 1968, p.64).
Quanto à personalidade de Abelardo, pode-se dizer que o narcisista exige de seus objetos a rendição incondicional. Desse ponto de vista, eles não amam, não sentem saudades, não desejam, apenas usam seus objetos e descartam, quando já não têm utilidade. Abelardo sabotou qualquer tentativa de abertura na vida de Heloísa, a destruiu como intelectual e como portadora das verdades de seu tempo (saber filosófico e literário), desejou e teve de Heloísa a lealdade total, irracional, o controle possessivo de sua vida e como aquela não foi portadora dos ideais totalizantes, deixou de ter valor e sentido, sendo assim descartada[5].
            “...É só, unicamente por vós, Abelardo, que me sinto à vida presa, e que será de mim se vos perder...” (HELOÍSA, 1968, p. 66).
            Heloísa rende-se totalmente a Abelardo e faz dele o elemento básico do seu universo. Desse modo, aceita o cárcere que será sua existência.
            “Renunciei sem custo a todos os encantos da vida; só reservei o meu amor e nenhum outro prazer me resta, senão o de pensar secretamente em vós e de saber que viveis, ainda que(ai de mim!) [...] Já não sou para mim e que eu não possa lisonjear-me de gozar o prazer de vos ver.” (HELOÍSA 1968, p. 67).
CONCLUSÃO


            No dualismo Estado/Igreja, na disputa entre poder temporal e poder espiritual, o poder imperial desgastou-se no que diz respeito ao controle e administração das escolas, ficando a Igreja dos romanos responsável cada vez mais pela cultura e reorganização escolar. A partir do século VI, passa a existir na Europa os reinos Romanos-bárbaros, implantados no Império Ocidental, sendo que a única autoridade política forte era a da Igreja Romana. Somente a Igreja, com seu duplo aspecto de mãe e de pai, é que podia servir de mestra aos povos bárbaros e formá-los na única cultura existente e consolidada a cultura clássica. Somente a Igreja é que podia ser mãe e mestra, pois estava concomitantemente ligada a duas sociedades uma antiga romana e outra criança, a bárbara. A Igreja edipiana teve um duplo aspecto e uma dupla face, ela conserva os pontos de ligação com o passado e se orienta para os tempos futuros, como mãe e mestra, como bífida, hermafrodita, servia de ligação entre esses dois mundos díspares, o da Europa velha e decadente, mas possuidora do saber-fazer clássico e o mundo da Europa criança, cheia de sonhos. Assim, a instituição escolar inicia-se com um perfil religioso, mas aos poucos incorpora o caráter leigo.
            Concordando com Emile Durkheim, o ensino propagado pela Igreja era


[Uma verdadeira] arma de guerra, um meio para ampliar o círculo de sua influência para conquistar mais mentes. E tudo quanto faziam e podiam fazer era propagar esse ensinamento pouco a pouco, através de uma espécie de disseminação silenciosa e de lenta difusão com um movimento ininterrupto [...] acrescentavam os mosteiros aos mosteiros, as escolas às escolas [...] pelo caminho de um espalhamento. (DURKHEIM, 1995, p. 42-43).


            Desse modo, a Igreja, portadora da condição de mater et magistra assumiu o caminho do progresso escolar, como professor que ama e castiga. Como pai e como mãe produziu um saber pedagógico, tornou a instrução necessária permitindo nas novas ordenações sociais que fosse sentida a necessidade da sua condição professoral.
            A Igreja passou a ter um poder absoluto, o rei detinha a maior autoridade dos tempos medievais, entretanto, a dominação estava nas mãos da Igreja, que tinha poder sobre os alunos e sobre todos os homens; enquanto a nobreza feudal e as casas reais tinham as suas propriedades divididas por casamentos e heranças, favores e lutas. A Igreja pode acumular terras e isso se devia a sua organização. Soberana do espírito era também senhora de um vasto território e dos homens que nele viviam.
            A Igreja Católica, através de seus professores, tanto das escolas das catedrais como das escolas dos mosteiros, assume o papel de mãe que cuida e que ama, preparando os filhos para um dia poderem receber os benefícios celestiais.
            Cabe, igualmente, à Igreja o papel de pai, que pune e vigia a alma das crianças e dos jovens para que eles não caiam em tentação, exigindo um controle de todas as pulsões. São os mestres da Igreja que vão direcionar a carga pulsional sexual para um controle espiritual e a instrução sob a lei do Senhor, no sentido de um dia as crianças e os jovens poderem receber de Deus os prêmios eternos. Tanto nos bispados como nos mosteiros as leis são severas como forma de efetivar uma boa educação e uma boa instrução religiosa, cuja preocupação especial era a educação moral e a participação na liturgia, ministrando também uma educação literária.
           
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[1] As universidades foram as principais organizações de características liberais na Idade Média, cujos estudantes determinavam   quando deviam iniciar o período letivo e sua duração. Fiscalizavam o exercício profissional dos professores, e, como instituição, permitiu que as categorias burguesas pudessem obter as mesmas vantagens que já desfrutavam os nobres e o clero, que, até aquela data, tinham sido negados. Nessa medida, a obtenção de um título universitário conduzia o indivíduo a uma situação paralela a da nobreza hereditária, desde o momento que o indivíduo passava a ostentar os signos da dignidade doutoral – a borla, o capelo, o anel e o livro, e assim sendo, as cidades medievais passavam a eleger seus embaixadores e oficiais dentre os mais importantes doutores em Direito, dantes uma prerrogativa específica do clero.
[2] As pulsões de morte (dominação, agressão, destruição) castram os indivíduos, limitam ou impedem que o desejo seja satisfeito; ferem os indivíduos moralmente, destroem as ilusões paradisíacas do inconsciente. Mediante os dois citados conjuntos de pulsões é que serão examinados o amor e a paixão amorosa em Abelardo e Heloísa, em que a paixão de Abelardo é desenvolvida como componente apenas de seu narcisismo; enquanto para Heloísa, a paixão aparece no sentido da busca de um ser que a pudesse completar, carregada de esperanças e vislumbrando fazer dos desejos de um os desejos do outro, salvando, dessa forma, cada um da solidão humana e enchendo a vida de fantasias, restauradora dos narcisismos de um e de outro e resgatando-os da condição da falta. Centrada nesta vertente, é que a paixão vive seus primeiros descontentamentos; é que, mesmo mergulhada na fantasia, sofre as primeiras desilusões, vindo a ser a partir daí instaurado a paixão amorosa. Vivenciados os momentos de plena felicidade, bem como os de decepções, os indivíduos saem do universo de fantasias para o universo da existência concreta. Assim, das decepções, nasce o amor; entretanto, a não objetivação do amor pode levar à escolha da morte, seja por um ou por outro. Tal perspectiva ocorreu com Heloísa e Abelardo. Ela continuou apaixonada (paixão amorosa). Ele nada fez, a não ser exigir cada vez mais a morte da paixão sentida por Heloísa e buscar cada vez mais objetos para o seu egoísmo narcisista e o amor jamais foi cristalizado entre estes dois amantes.

[3] A citada personagem Heloísa viveu uma relação apaixonada de forma hipnótica, numa devoção ilimitada, cuja devoção do ego ao objeto é tanta que todas as pulsões foram dirigidas para o objeto. Desse modo, a consciência do indivíduo não se aplica a nada que não seja feito por amor ao objeto. Assim, une-se inconscientemente o Ego ao Ideal do Ego, renunciando e limitando o narcisismo de vida pessoal, convertendo-se em escravo do objeto. Heloísa permaneceu por toda vida escrava dessa paixão amorosa, submetida a este sentimento de modo obediente, permitindo que Abelardo lhe condenasse violentamente à solidão, ao exílio e ao cárcere da vida monástica. É louvável e salutar escriturar que as relações entre mestre e discípulo não foram somente vivenciadas na Paideia grega e na Paideia cristã, como ocorreu com Abelardo e Heloisa, na mais racional academia alemã o grande mestre Martin Heidegger viveu um romance transgressor e narcisista com sua aluna Hanna Arendt. A aluna chegara em Maburg aos 18 anos de idade para estudar com Heidegger e Bultmann, a jovem moça de origem judaica chamara a atenção de Heidegger e esta se sentiu imediata e irresistivelmente atraída pelo mestre. Em pouco tempo começaram a ter intimidade física e Heidegger, num sentido narcisista, adotou regras para o relacionamento, e Hanna os cumpriu como um segredo absoluto, visto que, nem a esposa de Heidegger nem a comunidade universitária poderiam saber do tórrido romance. O professor Heidegger era 17 anos mais velho que sua aluna e pai de dois filhos. Heidegger e Hanna se amaram por muito tempo e esta foi a musa inspiradora de seu livro “Ser e tempo”, a obra de maior destaque do supracitado autor. Hanna, com o avanço do sistema de Hitler, exilou-se da Alemanha em 1955, publicou “Origens do totalitarismo” e tornou-se pesquisadora no campo das  ciências políticas e filosofia e Heidegger serviu como reitor de uma universidade alemã na época de Hitler. Não podemos deixar de citar uma das relações mais belas entre mestre e discípulo. Trata-se de Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre. Sobre eles podemos dizer que Beauvoir vinha de uma família católica, tendo nascido em Paris em 1908, tendo começado uma relação com Jean Paul Sartre, notável filósofo existencialista e marxista francês, tendo esta relação começado na época em que era estudante, e durou até o fim de suas vidas. É possível dizer que a filosofia existencialista de seu companheiro, Sartre, quando apresentada por ela, tornava-se mais convincente e com mais consistência. Simone de Beauvoir escreveu o livro “O segundo sexo”, posteriormente “Os mandarins”, sendo “O segundo sexo” o livro mais influente e que melhor apresenta o feminismo de século XX. Para ela o homem não pode escapar da mulher, e por isso a inventou. A atuação de Sartre e Beauvoir no campo da política foi tão expressa, que certa vez foram presos em Paris (1968).
[4] Abelardo é objeto único e insubstituível, Heloísa vivencia a experiência de fascínio totalizante, e essa paixão amorosa é cristalizada pelo discurso através das cartas de Heloísa, é nas cartas que a paixão mostra sua existência, é nas cartas que ela é revelada como sintoma, sendo também nas cartas que o sujeito pode falar dessa paixão como se fosse uma das formas de dar curso às pulsões que se encontram imobilizadas. Desse modo, a paixão amorosa é retomada através das letras, em que Heloísa pode falar de seu desejo, de sua expiação, até do que não tem importância. É através das cartas que Heloísa encontra o caminho de chegar até aquele que dá sentido a sua vida. No mundo contemporâneo, uma outra paixão amorosa, ou melhor, uma amizade apaixonada que trouxe grandes frutos, foi a vivenciada entre o professor Sigmund Freud e sua bela aluna Lou Andreas-Salomé. Lou foi a aluna devotada de Freud e com ele deu início à uma bela relação, na qual frequentemente aluna e mestre se confundiram através de uma instigante e reflexiva troca de reflexões, de conhecimentos, de observações e de experiências. Foi dessa forma que todas as semanas (no grupo das quartas feiras) os sérios alunos do banquete freudiano, reunidos em torno do mestre experimentaram a surpresa de ter no meio deles uma linda mulher. Lou tinha então 51 anos, mas não os aparentava, com seu talhe esbelto e seu olhar de menina. Ela provocou nos homens que a cercavam admiração e paixões, do grupo de Freud, pelo menos dois sucumbiram de modo irremediável aos seus encantos: o barão von Gebsattel, tão jovem que poderia ser seu filho, e um dos mais fervorosos alunos de Freud, Victor Tausk, que tinha então 33 anos. Houve entre Lou e Freud uma correspondência epistolar, com estima e um relato do cotidiano dos dois, as alegrias e as pequenas misérias, e também as análises do construto teórico-metodológico da psicanálise. Podemos dizer, através das leituras das correspondências entre Lou e Freud, que havia interdependência entre as duas partes. Lou se regozija a cada carta recebida, e Freud se queixa quando as da amiga se tornam raras. Freud denomina as cartas de Lou de fontes da juventude. A relação entre Lou e Freud é o que pode ser chamada de amor narcísico e foi este o sentimento que fez, desde os primeiros contatos, Freud ficar atraído por Lou. Uma outra relação entre aluna e discípulo foi a que existiu entre Sigmund Freud e a Princesa da Grécia e da Dinamarca Marie Bonaparte. A princesa Marie Bonaparte é uma das discípulas que mais participou dos destinos de Freud, e que se apegou, ao longo da vida, a toda a sua família. É ela que, nos últimos 15 anos da vida do mestre, está o tempo todo ao seu lado, pois tinha a convicção e a certeza da importância da obra freudiana. A princesa Marie Bonaparte amou a Freud como se ama um pai, o ajudou nas dificuldades na época da guerra e a partir de 1926 cuida da Sociedade de Psicanálise da França e financia a Revista Francesa de Psicanálise. Marie Bonaparte participa ativamente da Sociedade Psicanalítica de Paris, e recebe de Freud o anel com uma gravação que ele entrega de modo costumeiro aos seus discípulos mais íntimos. Lou Andreas-Salomé, Marie Bonaparte e a esposa de Ernest Johnes foram as únicas mulheres a receberem o anel do mestre. Um outro romance tessiturado no mundo acadêmico foi o de Albert Einstein e Mileva Einstein-Maric. Sabe-se que Albert e Mileva, apaixonados, discutiam física através de cartas, eque em duma das cartas Einstein escritura “não vejo a hora de começar nosso novo trabalho. Você deve continuar sua pesquisa.” Em outra carta está escriturado: “ quando estava lendo Helmholtz, pela primeira vez, parecia inconcebível que você não estivesse lá comigo. Acho nossa colaboração muito boa e rejunecedora.” Esta colaboração certamente se estendeu aos primeiros anos do casamento. Sabe-se que Mileva falava muito bem alemão, francês, e que na politécica era a única mulher numa turma de cinco alunos, em que Einstein era o mais novo e ela a mais velha. Em fevereiro de 1919 Einstein divorcia-se de Mileva, cujo casamento já dava sinais de esgotamento desde 1912. Mileva dedica-se as aulas particulares de matemática e física, tendo sido uma pioneira numa época em que as mulheres começavam a ingressar nos cursos superiores. A professora Desanka Trbuhovic-Gjuric referencia que Mileva Einstein-Moric havia contribuído muito para as duas teorias da relatividade, a restrita de 1905 e a geral de 1916.
[5] Heloísa reproduz em si o medo de criança frente às proibições do Édipo; Abelardo é então esposo, professor, pai, aquele que ela já não pode desejar, como filha e como irmã dentro do imaginário cultural de seu tempo. Seu eu portador também de forças desejantes, vem sofrer a angústia da autoridade interna (o próprio eu) e externa (o supereu), pela ameaça de proibição pela realização do gozo, e pelo ardor que experimenta seu desejo. Desse modo, vem a angústia e a culpa diante da proibição, assim, vem o cárcere definitivo. Heloísa já não deseja: ela arde no inferno da condenação.

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