A EDUCAÇÃO E A FORMAÇÃO DO HOMEM GREGO ATRAVÉS DE UMA LEITURA DOSIMPOSIUM ESCRITURADO POR PLATÃO.*
*Texto publicado no livro “Educação e Direitos Humanos: Interfaces”, Editora da UFPB, ISBN: 978-85-7745-963-6 (pgs. 195 a 218)
Martha Isabelle Astrid Medeiros Bezerra Lima de Mesquita
Olga Carolina A. L. Mesquita Medeiros Bezerra e Albuquerque
Luiz Gonzaga de Medeiros Bezerra da Cunha
Luiz Stefano Giovanne L. D’Albuquerque Mesquita M. Bezerra
1. PÓRTICO DE ENTRADA: NO PRINCÍPIO ERA O AMOR
O presente texto tem como proposta descortinar o processo de educação e formação do homem grego através da releitura do livro O Simposium, escriturado por Platão no sentido de mostrar que a educação por ele proposta tem como ponto de partida a construção de uma relação transferencial entre o mestre e o discípulo, preparando assim o discípulo para a vida na pólis e para a própria existência, mostrando que o homem é um ser desejante, é um ser político, é um ser da razão e um ser para o cuidado.
Desse modo a educação proposta por Platão em seu Banquete vem analisar através de um arquivo as diversas faces do amor e de uma educação que é transmitida de homem para homem, onde o grande gravador é o cérebro e tendo a fala e a linguagem como caminho para transmissão dos saberes e dos conhecimentos para construção do ser para a vida, do ser para o cuidado.
Nesse sentido, o campo da história da educação e o campo da história da filosofia possuem a tarefa de preparar os estudantes para pensar o mundo de hoje e o mundo do futuro a partir das lições que foram dadas no passado, despertando os jovens para uma consciência crítica, transformadora e de autonomia. Desse modo, é necessário refletir que a educação é construída a partir do vínculo, do laço, da amizade, da responsabilidade e do cuidado. Assim, a releitura do Banquete de Platão, nos leva à repensar a educação contemporânea, globalizada, no sentido de efetivar uma crítica a uma educação meritocrática, onde o professor é refém dos alunos, e em que o individualismo é a pedra fundamental da modernidade.
2. OS PERSONAGENS DO SIMPOSIUM, AS PALESTRAS, A SALA DE AULA E OS DISCÍPULOS E MESTRES
A casa de Agaton será o espaço para que uma elite de intelectuais da Grécia antiga elabore umSimposium, após um jantar, que fugindo à embriaguez dionisíaca, assume a proteção de Apolo – este deus é o motor da educação no mundo grego passando a ministrar aulas sobre o amor. As aulas ministradas noSimposium assumem um caráter apolíneo, serão claras e evocativas na medida justa.
2.1 O BANQUETE E SEUS PERSONAGENS: A UNIÃO DE EROS E PAIDÉIA
Os integrantes do Banquete são Apolodoro, que conta os acontecimentos ocorridos no jantar na casa de Agaton. Cada um participa, elabora sua própria lição de aula sobre Eros, estas lições chegam tanto da consciência como do inconsciente, contêm esquecimentos, lapsos, lacunas, são palavras que provêm do desejo de cada um escutar e de agir. Além de Apolodoro, outros participantes partilham do citado evento, como Fedro, jovem retórico, que ministra sua aula apresentando Eros à maneira de Hesíodo (Teogônico); Pausânias, que cria uma divisão para o amor, mostrando-o como derivado de uma Afrodite Urânica e uma Afrodite Pandêmia; Eurixímaco, médico elabora um discurso científico para o amor (racional); Aristófanes, comediante que lança mão do mito para discutir a questão do poder, do amor e do desejo; Agaton, que evoca o amor numa perspectiva literária; Sócrates, que constrói uma doutrina sobre Eros; Alcibíades, político, possuidor de riquezas, belo e elegante, vem nos mostrar os arroubos da paixão e a sua teatralidade, contrariando a proposta racional da filosofia; Diotima, a estrangeira de Mantinéia, que vem evocar o amor pelo vínculo edipiano, tendo sido ela quem iniciou Sócrates no conhecimento sobre o amor e pelo amor. “Na realidade o Banquete não é um diálogo no sentido usual, mas antes um duelo de palavras entre pessoas que ocupam todas uma posição elevada”. (JAEGER, 1995, p. 721). Este corresponde a mais alta cultura grega, é um momento metafórico, em que a educação filosófica, a “Paidéia” alcança o primado sobre a poesia. Trata-se de uma tradição da Escola Filosófica e uma tradição prática de banquetes nas formas de sociabilidade entre mestres e alunos, estas reuniões tinham verdadeiro espírito educativo-filosófico, portador do saber absoluto.
Os mestres são considerados como “sujeito de um suposto saber”, são aqueles que interpretam o desejo dos discípulos na medida em que desencantam o mundo, os fenômenos, os textos, os programas, as ementas.
Encontramos no Banquete vários métodos de abordagens para análise de Eros, através de diálogos, discursos, citações de poetas, provérbios e múltiplos estilos consubstanciados através da linguagem, na palavra que se faz carne, tanto no sentido da consciência, cujo ponto de partida é a curiosidade, o espanto e a admiração, no fazer e na vocação dos filósofos, assim como no lembrar, no repetir e elaborar, vivenciado pelos psicanalistas na dialética de sua vocação. Desse modo, esses métodos, estes caminhos, vão fazer o cotidiano daqueles que têm a vocação professoral.
Apolodoro relata a um amigo os acontecimentos ocorridos em um Banquete na casa de Agaton, o relato ele já escutara de Aristodemo, que também havia participado do acontecimento. Ele está investido do personagem do professor que está sempre a repassar para os alunos aquilo que aprendeu, portanto, o professor é aquele que reconta o que incorporou no cérebro, armazenou anteriormente num processo dialético de assimilação, acomodação, e que num lugar, vem lembrar, repetir e elaborar aquilo que estava guardado, sejam elementos conscientes, sejam elementos inconscientes. O professor é aquele que como Apolodoro, na sala de aula lembra o que um dia recebeu de outro professor, ou que leu e fichou, escreveu, discutiu; as lembranças são evocadas do inconsciente para a consciência, e o professor possui um gravador que é o seu cérebro. O professor repete tudo aquilo que aprendeu um dia com um outro professor, o que leu, o que ficou ancorado e que aflora de modo pulsional como um fogo latejante. Assim o mestre não só lembra e repete como elabora através do pensamento e da linguagem novos elementos, interpretações, conexões sobre o tema que é discutido ou apresentado em sala de aula.
Há no Banquete três momentos de aula: o momento em que Aristodemo relata o banquete para Apolodoro e o momento em que Apolodoro relata a um amigo, e o terceiro momento é expresso através do próprio Platão, quando relata para seus leitores através de sua obra.
Pode-se dizer, no espírito dessa obra platônica, que o professor exige essa dialética constante, esse ir e vir entre o antigo e o momento atual. A aula é uma prática voltada para a escrita do cérebro até os dias de hoje, é o cérebro que tem de funcionar, que produzir, trazendo algo das áreas conscientes e inconscientes. Pela palavra, é efetivada a reprodução numa cadeia de significantes; através da palavra, se realiza o conhecimento, as verdades, os encaixes, a busca e a nomeação de alguma coisa, no sentido de lembrar, repetir e elaborar.
No Banquete, Platão vem relatar aquilo que foi falado por Aristodemo a Apolodoro, num jantar na casa de Agaton. O jantar não é nada mais que o local da aula, onde são ministradas as aulas, cada uma com uma proposta de explicação para Eros.
Apolodoro é o professor e é também o portador do desejo de tornar público seu saber, de fazer com que os alunos aprendam algo que está a lhes dizer. Desse modo, o Banquete é um momento de aula, no qual o docente revela o que sabe, desnuda seu saber escondido, e o aluno convoca o professor a dizer o novo, a decifrar segredos sobre o que ele sabe; e o professor torna público pela sua fala o que ele sabe sobre um determinado assunto, e igualmente expressa os furos relativos ao seu conhecimento.
O Banquete igualmente revela-se além da importância do método “lembrar”, “repetir”, “elaborar”. Mostra a “transferência” entre aluno e professor. Constitui-se num evento, um Simpósium, ou mesmo uma aula, em que um grupo de alunos e cientistas ou filósofos da mais alta cultura (os grandes intelectuais do mundo grego) discutem sobre um tema, num nível de conhecimentos tão sofisticado que não se pode comparar a um congresso aonde vão gregos e troianos. Naquele evento somente é permitido a participação de uma elite de intelectuais. O Banquete é um simposium em que se tornam públicos os saberes mais sofisticados da ciência e da filosofia da época. Ali são transmitidos e tomam corpo na medida em que vão sendo revelados. Nesse evento são desvelados os desencontros, as relações no processo de construção do conhecimento, do ensino e da aprendizagem.
Nessa perspectiva, o Banquete se traduz como um momento de sala de aula, como um laboratório, no qual são invocados e revelados os segredos do saber, através da relação entre quem possui o saber e quem deseja obtê-lo.
No Banquete é revelado que o desejo é o desejo do outro e é assim que categoricamente nasce o amor. O aluno deseja o desejo do mestre. No espírito destas reflexões é louvável referenciar Lacan, quando comenta:
Pois o desejo, em sua raiz e sua essência, é o desejo do outro, e é aqui falando propriamente, que esta em a mola mestra do nascimento do amor, se o amor é aquilo que se passa nesse objeto em direção ao qual estendemos a mão pelo nosso próprio desejo e que, no momento em que nosso desejo faz eclodir seu incêndio, nos deixa aparecer, por um instante, essa resposta, essa outra mão que se estende para nós, bem como seu desejo. (LACAN, 198, p. 1180)
Trata-se aqui de mostrar o desejo num todo, pois existe o desejo daqueles que participam doSimposium-sala de aula. Naquele se cruza o desejo daqueles que proferem as palestras-diálogos sobre o que sabem e o desejo daqueles que são chamados a discutir. Assim, cada um no Banquete, como em toda sala de aula tem uma posição a ocupar, porém deve possuir as condições para escutar e ser escutado. É assim que também dialeticamente funciona uma sala de aula, com teses, antíteses e sínteses para escutar, no caso aqui estudado, que o objeto de estudo e de descoberta é Eros. Este é o único objetivo do Banquete e este é o núcleo central da relação entre aluno e professor naquele mundo. Nesse diapasão, efetuamos uma crítica ao modelo de aula e de ensino proposto pelo neoliberalismo que domina o campo da educação atualmente, onde o ensino e transmitido por vídeo conferências ou através do ensino à distância, sendo impossível existir transferência e laço entre mestre e discípulos, pois, ambos são estranhos e desconhecidos.
Desse modo, na sala de aula assim como no Banquete, constituem-se estes em lugares onde aluno e professor digerem, desejam e olham um só alimento. É o lugar da degustação das teorias, dos conceitos, da construção de teses, das dissertações, dos memoriais, do desmascaramento, do iluminismo. É o lugar da promessa, da transferência, onde todos os alunos colocam o professor na posição de um ser desejado e portador de um saber, suposto saber, saber não sabido.
2.2 A AULA MINISTRADA POR FEDRO: A APRESENTAÇÃO DO DEUS DO AMOR COMO UM DOS MAIS ANTIGOS DEUSES
Fedro, primeiro orador do Banquete, foi verdadeiramente o mentor intelectual do Simpósium sobre Eros. O personagem apresenta Eros, apoiando-se no contexto teogônico e na autoridade de Hesíodo: “Deus grande e admirado tanto pelas divindades, como pelos homens é Eros [...]. Devemos honrá-lo e louvá-lo como um dos mais velhos deuses e a prova disso é que Eros não teve nem pai nem mãe”.(PLATÃO, s/d, p. 83).
Eros não tem genitores, surge depois do caos, juntamente com a terra, está na raiz das gerações, e é a causa dos maiores bens
A causa dos maiores bens que recebemos, pois não sei de bem maior que se pode proporcionar a um mancebo do que amá-lo virtuosamente, nem para um amante do que amar um objeto virtuoso [...] porque, de fato, o que deve orientar os homens que deseja viver uma vida honesta [...] se o amor consegue dar isso. (PLATÃO, s/d, p 84.).
O amor, para Fedro, é responsável pela virtude, leva à compreensão de que se deve ter vergonha do que é feio e apreço pelo que é belo, o amor dá um conteúdo organizacional às ações dos homens.
No campo do Estado, o amor conduziria ao seu bem maior é o que revela Fedro em seu relato, afirma
De sorte que se fosse possível formar por algum modo um Estado ou um exército exclusivamente composto de amantes e amados, assim se obteria uma constituição política insuperável [...] Eros inspira coragem [...]. Eis o que faz Eros com os amantes. (PLATÃO, s/d, p. 84).
O amor, nesse contexto, assume um significado nesta pesquisa, pois desvela o que se passa na relação entre mestre e aluno, no sentido de mostrar o contato estreito entre estes, numa relação da falta, cujo professor é aquele que conduz e vai ao encontro do aluno. Este vê no professor aquele que porta saber e a promessa; sendo, portanto, é na sala de aula que se observa o desnudamento da relação no mundo grego, partindo, como disse Lacan, no “Seminário” da “transferência” e da posição assumida de “o érastes”, o amante, ou ainda o érôn, aquele que ama, e o érôménos, aquele que é amado.” (LACAN, 1992, p.46).
A relação entre professor e aluno dar-se-á nesta dialética, o érastès, o amante, ele não sabe o que é que lhe falta, ele é o sujeito da falta, enquanto o érôménos,, o objeto amado, ele também não sabe o que tem.
O que falta a um não é o que existe escondido no outro. Aí está todo o problema do amor [...]. No fenômeno encontra-se a cada passo o dilaceramento, a discordância [...] Ninguém, no entanto, precisa dialogar [...] sobre o amor [...] basta amar para ser presa dessa hiância, dessa discórdia. (LACAN, 1992, p.46).
Os efeitos do amor – esse Deus – são o vínculo, um exército de amados e amantes. O amor é invencível na medida em que o amado para o amante, tanto quanto o amante para o amado representa uma autoridade moral, diante da qual não se cede e não se desonra. Nessa medida, professor e aluno unem-se no vínculo dialético do amor na construção do saber, na ânsia de honra, engendrando a ciência. Assim, Eros tem uma justificativa moral, como organizador da amizade do Estado e da comunidade.
2.3 AULA MINISTRADA POR PAUSÂNIAS: O AMOR INTELECTUAL E O AMOR RESPONSÁVEL PELA PROCRIAÇÃO: O AMOR DE UM HOMEM POR OUTRO HOMENS E O AMOR ENTRE UM HOMEM E UMA MULHER.
Pausânias censura a falta de precisão conceitual do discurso proferido por Fedro e entra no campo da divisão do amor e da sua qualificação em superior e inferior. Ele define uma fundamentação erótica para o amor, sem abandonar o corpus mitológico do discurso de Fedro, firmando-se na dupla natureza de Afrodite na qual se encontra Eros. O referido personagem vem justificar e mostrar a esfera do amor em que se efetiva a pedagogia grega, assim, qual é o mundo onde se objetiva uma tipologia especial de Eros, nobre, voltado para o saber filosófico e para as obras da cultura. As posições de mestre e aluno são dialeticamente assumidas como erômenos ou como érastès, formando a metáfora geradora e ressignificadora do amor na Atenas culta do mundo antigo. Tudo se explica em torno do mito: “É coisa conhecida de todos nós que Afrodite e Eros são inseparáveis [...]. Com efeito, as duas Afrodites, logo, deve haver dois Eros também [...] A Afrodite popular faz jus ao seu nome; é verdadeiramente vulgar e se realiza como que por acaso; e é o amor com que os homens inferiores amam”. (PLATÃO, 1980, p. 86/87).
Esta Afrodite vulgar ou Pandêmia, que é inconseqüente e física, é a que contém o Eros usual e corrente, o instinto irrefletido e vulgar, que tende à mera satisfação dos apetites sensuais tanto masculinos como femininos. A outra Afrodite, a Urânia ou celestial
Não participa do feminino, mas unicamente do masculino, e, por isso, é o amor dos mancebos [...] não se excede na concupiscência, e é por essa razão que os adeptos desse Eros preferem o sexo masculino e nele amam o que por sua natureza é mais forte, mais inteligente” (PLATÃO, 1980, p. 87).
O amor celestial, amor entre homens, amor do homem ao rapaz, é um amor que deseja acompanhar toda a vida e viver em comum, é impulsionado ao zelo e ao bem, à perfeição do amado, é uma força educadora, formadora, que desvia o amante das imperfeições e ações vis, é a força que serve ao amigo e o ajuda na construção da personalidade.
Essa concepção exige a convergência entre as pulsões de natureza sexual com os motivos ideais para que a tendência física do Eros fique justificada. Isso se dá, segundo Pausânias, no compromisso da educação formada pelo Eros Nobre. Enquanto isso, o Eros vulgar é vil e repugnável, tende apenas à mera satisfação dos apetites sexuais dos homens e das mulheres, ou de quem quer que seja. Pausânias vem dar a possibilidade de instauração valorativa de Eros na distinção entre um amor superior e inferior. Esse amor urânico é o amor que anima o fazer pedagógico “de muito valor para a cidade e para o cidadão, porque muito esforço ele obriga a fazer pela virtude, tanto ao próprio amante como ao amado”. (PLATÃO, 1992, p. 69). Este amor culmina na docência erótico-filosófica e estabelece a estreita conexão para o saber grego e seu mundo entre a pedagogia e a pederastia. O amor superior (urânico) “o que se dá entre aqueles que são ao mesmo tempo os mais fortes e os mais vigorosos, e também que tem mais espírito, [...] que sabem pensar, isto é, entre as pessoas colocadas no mesmo nível pela sua capacidade, os homens”.(PLATÃO, 1980, p. 61).
Este é o amor no qual envereda a relação aluno-docente, cujo objeto é a inteligência e o conjunto do campo dos méritos, em que tanto a Paidéia como a Sofia vão encontrar o campo do melhor e a articulação desse par, de uma aquisição e de um proveito, de uma posse em que se articulara esse Eros superior, mesmo quando com o passar do tempo, segundo Lacan, os parceiros tenham se modificado, sendo assim chamado de “amor platônico”. Tal amor efetivado no mundo da cidade de Atenas, no campo da Paidéia se manifesta de modo intencional, estável, com duração “mais que isso, numa duração comparável [...] a união conjugal” (LACAN, 1992, p. 62).
No mundo da polis grega e do seu lugar pedagógico, esse amor exige “competição”, “luta”, “concorrência” entre os postulantes, pondo à prova aqueles que se apresentam em posição de amante, “e trata-se de que a escolha que sucede a essa competição seja melhor”. (LACAN, 1992, p. 62).
No mundo da educação existe uma concorrência no sentido de ser aquele aprovado pelo mestre, existe um jogo de luta que dura vários cursos, vários anos, em que no jogo erótico-acadêmico uns são favorecidos, cujo fenômeno vai mostrar a permanência da lei do amor nos diferentes campos. Na Grécia, nas cidades ligadas aos regimes políticos se efetivava a valorização ao uso da palavra e ao homoerotismo.
2.4 AULA MINISTRADA POR ERIXÍMACO: A RETOMADA DA DIALÉTICA DE HERÁCLITO
Erixímaco, o médico, tanto reconhece o Eros bom como o Eros mau, isto é, concorda com o urânico e o popular; entretanto, afirma que o amor é resultante da arte de equilibrar os opostos e seu desequilíbrio gera doenças. Seu discurso versa sobre o amor do ponto de vista naturalista. O amor para este personagem do Banquete é uma potência criadora, que tudo anima e penetra com seu ritmo periódico de pleno e de vazio, ele vê o bem estar em sua harmonia.
Erixímaco retoma a filosofia de Heráclito, no sentido de que é possível estabelecer amor, harmonia e concórdia entre os contrários, aparecendo assim o método dialético estabelecendo harmonia entre aquilo que se mantém e aquilo que passa. Assim como a ciência médica que tem como proposta protagonizar forças físicas antagônicas, a música também tem como proposta a harmonia entre forças físicas antagônicas.
Do ponto de vista do discurso, o citado personagem faz de Eros uma potência universal: “Eros efetivamente é um grande, um admirável deus que exerce domínio sobre todas as coisas divinas e humanas” (PLATÃO, 1980, p. 93).
No campo pedagógico, Eros é percebido no meio de uma relação contraditória do professor e do aluno, o professor é aquele que detém o saber e o aluno é aquele que aprende. É, portanto, neste vínculo de oposição que se efetiva Eros-harmônico que existe no campo pedagógico entre os opostos: o mestre e o aluno, do contrário, pode advir os males e doenças como acontecem na natureza: geadas, granizos, peste. Assim, o aluno é aquele que não tem luz, e o professor é aquele que possui o sol do conhecimento. Ambos, no processo de ensino aprendizagem, estarão unidos dialeticamente para uma nova síntese.
2.5 AULA MINISTRADA POR ARISTÓFANES: O HOMEM COMO SER COMPLEXO, COMO SER DA FALTA E COMO SER DA HIÂNCIA E DO CUIDADO, O AMOR E SUAS DIVERSAS FACES
Aristófanes, comediógrafo, inicia seu discurso retomando a temática do poder do amor, e para efetivar tal discurso, lança mão de um mito, o mito é aqui escriturado como método de abordagem, como metáfora, tentando explicar o poder do Eros, este impulso que lateja, que faz ruídos sobre os seres humanos e os coloca na constante busca, procura, armadilhas, abismos, misturas.
O personagem em discussão relata que
Outrora, nossa natureza era diferente da que é hoje. Havia três sexos humanos e não apenas como hoje, dois: o masculino e o feminino, mas acrescentava-se mais um que era composto ao mesmo tempo dos dois primeiros [...]. Três sexos havia, como disse, e isto porque o masculino era descendente de Hélios (Sol), o feminino de Gaia (Terra), e o que participa dos dois, de Selene (Lua), a qual como se sabe, participa tanto de uma como de outra (PLATÃO, 1980, p. 95).
Aristófanes fala da natureza de Eros a partir do mito, quando os seres humanos antes de possuírem a forma atual, eram o dobro do que são atualmente, e por causa da desobediência a Zeus, este cortou ao meio, o que os tornou separados assumindo a forma que têm atualmente.
O castigo de Zeus pela hybris humana consistiu em cortá-los, separá-los, cindindo assim verso e reverso. Apolo incumbiu-se de efetivar uma “plástica” para melhorar o que sobrou, entretanto, nada pode fazer para mudar a sensação de incompletude e de falta que ficou nos seres. Cada ser procura sua outra metade, cada um deseja se completar, cada um quer refazer pelo amor a parte perdida, sempre estando em busca da unidade. Embora esta unidade seja ilusória, seja uma odisseia constante ou uma guerra sempre perdida porque nós só pertencemos unicamente a nós mesmos, ninguém é de ninguém.
Os homens que são hoje a metade do que outrora se chamava andrógino, são loucos por mulheres, [...] a ela pertencem igualmente as mulheres que amam homens [...] as mulheres, ao contrário, que se originaram por divisão do antigo gênero feminino não sentem nenhuma atração pelos homens, mas apenas como é lógico, por outras mulheres [...] aqueles, porém, que são uma secção de homem ligam-se a homens, e, enquanto são jovens amam os homens e sentem grande prazer em deitar-se e serem abraçados por eles (PLATÃO, s/d, p. 97).
Dentro desta perspectiva, o amor, fundamentalmente, não é a busca pelo semelhante e sim a procura da totalidade partida. Eros nasce assim do anseio metafísico do homem por uma totalidade do ser, inacessível para sempre à natureza do indivíduo.
2.6 AULA MINISTRADA POR AGATON: AS DIVERSAS CARACTERÍSTICAS DO AMOR
Conforme o discurso proferido por Agaton, pode-ser vislumbrar a figura de Eros configurado como um deus, que dos deuses é
Eros [...] o mais feliz e o mais belo e o mais belo e o melhor [...] o mais jovem [...] a sua juventude é eterna [...] delicado [...] não caminha sobre a terra nem sobre os crânios [...] marcha e repousa sobre as coisas mais tênues [...] constrói sua morada nos corações e nas almas dos deuses e dos homens [...], flexível e ágil se mostra na graça [...] é o mais bravo do que o mais bravo de todos [...] o mais valente de todos [...] Eros é quem traz a paz aos homens, a calma ao mar, o silêncio aos ventos, o leito e o sono para a dor. (PLATÃO, 1980, p. 100-103).
Agaton procurou definir a natureza (essência) e as características do amor e não sua aparência.
Eros aparece, no discurso de Agaton, mais jovem, mais belo, mais feliz, e o jovem não é responsável, é delicado, terno de constituição úmida, não cometendo e nem sofrendo injustiças. É o Eros que leva à sociabilidade, infantil e ingênuo, malicioso, esvoaçante. O referido deus é delicado, não caminha sob o solo e sim nas almas, desse modo, é úmido para que possa se alojar nas almas, Eros é belo!
Ele aparece como o ser que não tem uma classificação é inclassificável, vindo a ser colocado em todas as situações significativas. O amor nunca está em seu lugar, o que leva a dizer que ele estará sempre fora do eixo.
O amor é o mais forte de todos os desejos, é o que faz entrar em pane, é aquilo que liberta, que desembaraça da crença, o amor vem preencher todo o vazio do ser humano.
2.7 AULA MINISTRADA POR SÓCRATES: DO DESEJO ÀS LEIS DA RAZÃO
Sócrates inicia seu discurso elaborando uma refutação a Agaton, segundo este participante doSimpósium platônico, o amor não pode ser igual ao belo, pois o amor é um desejo, “Eros deseja [...]” (PLATÃO, 1980, p. 105).
O amor é amor de algo; quem deseja algo, deseja algo que não tem (o Outro), “não possui a coisa aquele que a deseja, e que se a tivesse não a desejaria”. (PLATÃO, 1980, p.105). E, caso já tenha o que deseja, diz-se que deseja continuar a ter no futuro o que tem hoje. “... a pessoa, e quem querem que deseje forçosamente o que não está a sua disposição, o que não possui, o que não tem, o que lhe falta” (PLATÃO, 1980, p.106). Portanto, o amor é um querer de algo que não é ele próprio (somente existiria amor a partir da existência de dois seres), desse modo, o amor difere do belo, pois se o amor é um querer que não é ele próprio o querer o belo, ele mesmo não pode ser o belo.
Assim, no sentido de desvelar o que é o amor, Sócrates se reporta à memória, resgatando o discurso da pitonisa Diotima de Mantinéia, que vem instaurar um outro lugar para Eros: o lugar da procriação, o lugar da mulher, num universo predominantemente masculino, o amor das mulheres é o amor tessiturado na corda da existência, é o amor que tem o poder de perpetuar a espécie, é um amor que busca sempre o seu lugar.
De acordo com (PLATÃO, 1980, p.107): “Reproduzi-vos um discurso sobre Eros que outrora ouvi dos lábios de Diotima, mulher natural de Mantinéia [...] pessoa sábia [...] a ela devo o que sei relativamente sobre o amor”. O amor, para Diotima é um ser intermediário entre deuses e mortais: ‘um gênio, [...], pois tudo que é gênio medeia entre deus e ser morta; não é nem belo nem feio”
É pobre e muito longe está de ser delicado e belo, Eros, na realidade, é rude, é sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão [...] junto aos umbrais [...] sem leito nem conforto [...]. Está sempre a deliberar e a urdir maquinações, a desejar e adquirir conhecimentos filosofa durante toda a sua vida, é grande feiticeiro, mago e sofista [...], nunca se encontra em completo estado de miséria, nem tampouco, na opulência (PLATÃO, 1980 p. 109).
O amor é, desse modo, definido como misto, intermediário que desconhece o tempo, o lugar, a cor, o sexo, os cálculos da matemática, é algo que vem das profundezas do ser de sua parte mais arcaica, o amor é uma pulsão que desconhece se é inverno ou verão, primavera ou outono, subida ou descida, o amor é o inconsciente que liga homens e deuses, sendo, portanto, intermediário.
Sobre a relação da utilidade do amor, Diotima dá as seguintes conduções: o amor leva o ser humano sempre ao desejo de ter sempre o bem e o belo. “... O amor é o desejo de possuir sempre o que é bom” (PLATÃO, 1980, p. 112). E não é o belo nas coisas, mas o belo em si, o amor é vislumbrado aqui no sentido universal a que se refere toda a humanidade, ao inspirar o desejo de ter sempre o bem e o belo, inspira o desejo da imortalidade. Diotima mostra também a relação do amor com a imortalidade. Amor é procriação, é parir o belo, pois a geração é algo imortal para o mortal. O amor é o desejo de ter o bem sempre consigo, é também o desejo do bem e o desejo de eternizar-se e mortalizar-se. “E não só no corpo se dão as mudanças: o mesmo acontece com o espírito. Costumes, convicções, desejos, prazeres, aversões, temores, todas estas coisas jamais permaneceram as mesmas” (PLATÃO, 1980, p. 15).
Do mesmo modo que o corpo, o espírito passa por transformações, sendo que a alma não é mortal por sofrer metamorfose diferentemente do corpo é a alma imortal. O que é mortal se conserva através das gerações, atuando em função do mortal, pois deseja e ama o imortal.
Segundo Diotima de Mantinéia constituem-se em algumas formas de geração do amor
a) Amor físico, com a objetivação da continuidade da espécie. A mulher procria mantendo a geração. Por outro lado, o amor físico entre homens não tem como finalidade a continuidade da espécie.
b) Através da poesia, perpetua a memória e a glória;
c) Através da legislação, cria a justiça, o direito, as virtudes, a educação. Pela legislação, efetiva-se o amor espiritual, através do encontro de dois sujeitos que se amam, só que o produto não é uma criança, mas os discursos com a função de educar;
d) A geração pode ser efetivada por dois meios: o amor físico para produzir crianças e a geração através dos discursos formatando a alma e um novo homem.
Em sendo assim, Diotima vem consolidar o Eros pedagógico, trazendo igualmente a mulher para um lugar, o da garantia da espécie, através da reprodução pelo amor físico, mesmo sabendo que existe também o amor físico entre os homens.
Nessa perspectiva, “Todo Eros espiritual é procriação, ânsia de cada um se eternizar a si próprio numa façanha ou numa obra amorosa da criação pessoal que perdure e continue a viver na recordação dos homens” (JAEGER, 1995, p. 741).
Na Paidéia grega, o amor significa geração, imortalidade, busca contínua, onde: “Aquele que tem o espírito repleto de força geradora, busca algo de belo em que gerar [...]. Acolhe de braços abertos o ser humano na sua totalidade e expressando-se nele [...] no contato e tato com ele, concebe e dá à luz o que trazia dentro de si”. (JAEGER, 1995, p.741)”.
Na Paidéia grega, o amor é imortal: “a sua comunhão é um vínculo mais forte que o dos filhos do corpo e o seu amor mais duradouro que o dos esposos, pois os une algo de mais formoso e imortal” (JAEGER, 1995, p. 742).
Na concepção de Diotima, Eros vem a ser o edifício moral-educacional da comunidade humana, Eros tem um significado humano, dando sentido e razão à Paidéia grega, fazendo triunfar como ser dialético e filosófico.
2.8 AULA PROFERIDA POR ALCEBÍADES: O ENCONTRO ENTRE APOLO E DIONÍSIO: APOLO BEBE O SANGUE DE EROS NA TAÇA DE DIONISIO E DIONISIO BEBE O SANGUE DE EROS NA TAÇA DE APOLO
A última cena de aula vem efetivar-se quando o belo e festejado Alcebíades irrompe casa adentro e com um discurso carregado de audácia designa Sócrates como mestre de Eros. Ele vem ao Banquete representar a paixão dionisíaca e desmesurada, de modo teatral, o citado personagem vem representar Dionísio, ungido com uma espécie de coroa tufada de heras e videtas e coberta de frutas em profusão.
Alcebíades senta no divã, ao lado de Agaton e ao lado de Sócrates, seu amado inconquistável. Ele é incentivado por Erixímaco a fazer um discurso sobre Eros, entretanto, a fala constitui o discurso daquele que está embriagado, após os sombrios discursos sobre Eros, efetivados à luz da razão. Suas palavras destinavam-se a Sócrates, por ter sido rejeitado por ele, por estar magoado. O belo Alcebíades exalta o velho Sócrates que é o inatingível objeto de desejo. Ele elogia Sócrates dizendo: “ao ouvi-lo, meu coração pulsa mais fortemente do que o dos coribantes, e enchem-se os meus olhos de lágrimas, sob o efeito de suas palavras” (PLATÃO, 1980, p. 20).
Sócrates é comparado por Alcebíades aos silenos: começarei dizendo que Sócrates é semelhante a esses silenos que se encontram nas oficinas dos estatuários, e que os escultores representam com avenas e flautas nas mãos: e quando se abrem estas estátuas, vê-se que no interior, se aloja um deus. (PLATÃO, 1980, p. 120).
Pode-se dizer, segundo Alcebíades, que Sócrates é comparado a um deus. Alcebíades, estando incontido, nada esconde, desvelando todas as tentativas para seduzir o velho mestre, para cativá-lo e torná-lo preso a sua paixão. Sócrates escapa sempre da paixão invertendo sua posição na relação érastes/erômeno, fazendo-se de amoroso, está na posição de bem-amado, ao invés de amante.
Nessa medida, Alcebíades, assim como aqueles que falam palavras sedutoras representa o amor-paixão, acorrentado, a imediatez, o presente, o mundo sensível e a urgência do aqui e agora, não percebendo que o amor possui uma aprendizagem, não compreendendo o Eros socrático-platônico, erotizado pela filosofia.
O Banquete põe em aberto a aversão e as habilidades daquele que é ambicioso e invejoso frente a uma grandiosa personalidade como a de Sócrates. Assim, Alcebíades dá-se conta de que o amor de Sócrates é inacessível.
Pode-se dizer que a chegada de Alcebíades ao Banquete é a mola da mudança, pois não se fará elogios ao amor, Alcebíades é a própria paixão. É importante expressar as palavras de Sócrates
Protege-me Agaton! O amor deste homem só me causa incômodo. Desde que o amei, não me é mais permitido dirigir um olhar ou trocar uma palavra com nenhum belo jovem, pois este homem, ciumento e despeitado começa a fazer escândalo, entra a injuriar-me, e quase me agride [...]. Na sua loucura e amor, este homem é capaz de fazer muitas coisas” (PLATÃO, 1980, p. 118).
Sócrates expressa o seu mal estar e seu pânico referindo-se a Alcebíades, pede-lhe amor e ele se cala. Entretanto, Alcebíades elabora seu elogio a Sócrates, desvelando que este é o seu objeto de desejo; Sócrates é o objeto procurado, esse objeto difícil de enunciar porque não há palavras para defini-lo.
Nesse sentido, Alcebíades ainda vai definir Sócrates como a jóia preciosa que desencadeou um desejo. Aquele racionalmente cuidou para que as manobras de sedução não violassem seu espírito e Alcebíades queria obter justamente dele tudo o que estava em causa. Sócrates não permitiu ser o amado, ele vem mostrar que nada há para ser amado nele, mostrando-se como o não portador, oco, ou vazio. Por outro lado, Alcebíades representa um demônio frente a Sócrates.
Conforme Jacques Lacan, Sócrates desvia o desejo e substitui alguma coisa por outra, mostrando a Alcebíades que o que ele deseja é o agalmata[1] e quem é o possuidor é Agaton e não ele, pois ele bem sabe o que é o amor e igualmente sabe que Sócrates é velho e, portanto, não seria desejável. Para (LACAN, 1992, p. 164) “ser amado é entrar necessariamente na escala do desejável”, daí Alcebíades comparar Sócrates a deus, esforçando-se para efetivar um elogio aquele a quem ele desejava, [...] grande mestre, o sábio que a todos convencia.
Sócrates sabiamente mostra o que não é o ideal, não é o espelho narcisista, não possui o agalma, não tinha ele a pedra que violava todas as leis, a essência oculta, portanto, isso viria a confirmar todo o discurso escandaloso de Alcebíades.
O mestre Sócrates feriu-lhe por ter prosseguido firme, construído um discurso do amor pela via do Erro-educacional e não do Erro-demoníaco, exaltador das coisas frívolas e da última hora. Sócrates mostrou que o amor é impressionante e composto de vários elementos presentes na Educação-Paidéia.
O Banquete constitui-se o espaço onde se discute o amor, vindo a ser a confirmação de uma educação em que reina o Eros como mola responsável pela construção da cultura grega. É o lugar onde se ancoram os discursos em louvor a Eros, dentro do modelo da Educação-Paidéia, modelo este que exclui a mulher e o coloca como personagem dedicada e submetida a um mundo dominado pelo homem. Este evento platônico mostra uma educação, em que os homens dominam construindo um campo simbólico cheio de tradições, práticas, valores que são inculcados no espírito, consolidando a lei paterna e a retirada da criança do vínculo materno.
Muito cedo, a criança é desvinculada do mundo dos prazeres da mãe, sendo submetida à educação que se efetiva pelo vínculo paterno, voltada para a polis, construindo, assim, um espaço político e pedagógico em que a figura materna é excluída.
O Simposium revela o mundo da lei paterna, cujo Eros terá que ser evocado em nome de uma razão construtora da cultura, cujo desejo só é bem recebido se estiver ligado a construção de um conhecimento filosófico que tem como objeto o preparo para o Estado e para a política.
O Banquete vem pontuar um elogio a Eros, entretanto, esse elogio é profundamente marcado pelo conflito que se instala no inconsciente de cada participante, a de que Eros é um demônio, isto é, um ser contrário à razão, entretanto, terá que ser submetido ao controle rigoroso desta e somente será aceito quando se destinar à construção do que é valorizado socialmente.
Pode-se dizer que todos os personagens do Banquete (intelectuais) estão imersos em uma prática pedagógica denominada de educação Paideia, desse modo os homens procurarão seres mais jovens para ensinar e cuidar, assim como a mãe os cuidou e os envolveu. Teciturando uma educação a partir de desejos homoeróticos, consolidados a uma prática acadêmica e justificados em nome de um amor que une o desejo de cuidar, à amizade, ao companheirismo e ao isolamento da mulher deste mundo dos homens. Somente excluindo a mulher do seu mundo é que o homem grego pode dar continuidade ao seu Édipo (a ligação amorosa com a mãe, de quem eram afastados para servir ao Estado polis), somente construindo um modelo de educação, em que se crescem os elementos pulsionais desejantes e as construções especiais de uma razão predominantemente masculina é que a educação grega poderia consolidar um saber que dominaria o mundo ocidental, este saber pode ser sintetizado através de Apolo e de Dionísio num combate onde não é possível Apolo beber na taça de Dionísio um saboroso vinho e Dionísio beber na taça de Apolo, e ambos caminharem juntos, portanto, na Paideia grega o Eros que predomina não mais será o Eros livre do período pré alexandrino, e sim o Eros Razão, inaugurado por Sócrates.
Os gregos portadores de uma educação voltada para a sublimação das forças do inconsciente e construtora de um amor homoerótico efetivaram uma dominação simbólica tão forte que submetido ao Império Romano afirmaram mais ainda essa dominação, quando os romanos incorporaram o saber, seus conceitos, a religião e as formas de fazer arquitetura da cultura grega, espalhando-os pelo mundo.
A educação grega repassada por Platão no Banquete exigiu que Eros fosse deslocado de seu lugar de Deus e consolidado como uma força intermediária entre deuses e mortais; desse modo, Eros se tornaria uma presa da razão, saindo de seu modelo mítico, em que convivem razão e desrazão, vindo para perto dos seres humanos seria manipulável pela lógica da Paidéia.
O Eros que devia ser aceito seria aquele que se distancia do comum, do vulgar dos apetites carnais. Entretanto, o Eros aceito seria aquele filosófico-poético-estético, preso às correntes da educação do mundo dominado pelos homens. É esse Eros que vem dominar as relações sociais entre os gregos, consolidando a sociedade dos homens e submetendo a mulher, obediente e calma, à vida no gineceu. Tal submissão feminina vai ocorrer também em Roma, mediante um conjunto de normas jurídicas do Direito Romano, que consolidou cada vez mais o domínio dos homens.
A educação representada no Banquete vem mostrar não só a existência de Eros, que se desloca do campo mítico para o humano, mesmo submetendo o desejo ao domínio da razão, porém possibilitando a convivência destes e levando a um debate sobre a posição da mulher naquele mundo.
Sócrates vem mostrar a continuidade da espécie, evidenciando a existência de dois tipos de Eros, que podem conviver mutuamente, um voltado para a imortalidade e efetivado pela lógica da biologia e outro também voltado para a imortalidade, efetivado na construção da filosofia.
Nesse sentido, a sociedade poderia experimentar a convivência do desejo e do amor nestes dois campos, se complementando, convivendo com os dois, sem exclusão, guiando um ser humano tanto pelo vínculo da razão como pelo desejo.
2.4.3- Édipo Desperta
O mundo grego foi o espaço matricial que possibilitou a transferência dos laços da vida familiar para a vida educativa (vida escolar, acadêmica), vindo estes laços se consolidar através do Édipo (complexo que inclui a relação amorosa entre o filho, a mãe e o pai, em que o filho pode se apaixonar por um dos genitores ou pelos dois ao mesmo tempo, e poderá odiar um dos genitores) no universo pulsional que envolvia o aluno e o professor, expresso numa educação voltada para a vida da polis (da cidade Estado grega), no preparo do jovem para o amor a pátria, as instituições e o elenco de deuses (uma monarquia de deuses criada no imaginário formada por Zeus, Apolo, Dionísio, Afrodite, Hermes, Era, Diana).
Desse modo, a educação grega reproduz o vínculo edipiano familiar cujo professor tanto exercia função materna como igualmente função paterna, vindo a ser aquele que pela via do amor cuidava e ensinava, sendo também aquele que exercia a castração pela lei, mostrando os limites e as regras de uma sociedade de classes e de um mundo onde os homens eram dominantes.
O mundo romano assimilou a educação e o disseminou por todas as suas províncias a filosofia e a cultura grega de modo geral, sua forma de ver o mundo, de fazer, de sentir na arquitetura (a ordem dórica, a ordem jônica, a ordem corintiana, a ordem cariátide e a elaboração do edifício tipo: o templo grego), na pintura e na escultura (a escultura arcaica, a escultura clássica e a escultura helênica). Criou as bases para a educação ocidental em todos os campos do saber fornecendo também as estruturas para sistematização do direito pelos romanos posteriormente.
Considera-se que Eros e Édipo, ao despertar, na educação grega, consolidaram um habitus educacional e o poder professoral, vindo a assegurar ao professor a condição de portador de um poder-saber e saber-poder, efetivando ações conscientes e inconscientes, hierarquizadas e mantidas, assegurando a reprodução das relações sociais, engendrando comportamentos, criando habitus educativo, social e individual, que implica a interiorização superegóica e sua objetivação no mundo da cultura, sem deixar de efetivar o desejo inconsciente, através da sublimação expressas em obras valorizadas pela cultura (obras da arquitetura, escultura, mitologia, literatura).
Nessa perspectiva, podemos afirmar que o professor, enquanto pai, é detentor do poder, exercendo e imprimindo normas, vigiando, castigando, aprovando, conferindo grau, gerenciando programas, predisposições, levando o aluno a construir os objetos da cultura. Ele faz com que o campo educacional seja um mercado de bens simbólicos que tem no seu aluno o vínculo edipiano e erótico como motor. Na educação, é o professor portador da lei paterna, que através da palavra vai mostrar qual a conduta transgressora, a conduta aceita e a marginal, norteando um habitus pela via do poder e do amor, cuidando, engendrando, criando, dando respostas coerentes com o pensamento hegemônico.
É essa construção erótica-edipiana que vai ser posteriormente enraizada no mundo medieval, numa relação entre aluno e mestre, cujo Édipo-Eros é movido pela libido cristã.
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[1] Termo grego que pode ser traduzido por ornamento tesouro, que na concepção de Lacan, é o objeto “A”, objeto-causa do desejo, este objeto privilegiado do desejo, a fronteira do desejo.
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